"Qual não seria a aversão das gerações futuras, quando tivessem de se ocupar com a herança deste período, em que não são os homens vigorosos que governam, mas os arremedos de homem, os intérpretes da opinião"(Nietzsche, escritos sobre a educação)

sábado, 26 de maio de 2012

Julgamento de Sócrates é recriado em Atenas





Louisa Gouliamaki / AFP


Quase 2.500 anos depois da condenação de Sócrates por ter desafiado as leis da pólis, Atenas volta a "julgar" a partir desta sexta-feira o filósofo grego, para tirar lições para superar da crise atual.

"Aqui estamos falando de democracia contra oligarquia, de liberdade de expressão em tempos de crise nacional, da sabedoria dos eleitores contra sua não-sabedoria", e graças ao processo fictício poderão ser "debatidos novamente todos estes temas", comemora Loretta Preska, uma juíza nova-iorquina que nesta sexta-feira será a presidente do tribunal.

Sócrates se defendeu no século IV a.C. diante de 500 atenienses, cidadãos, juízes e jurados. Nesta sexta-feira, na fundação Onassis de Atenas, um painel de dez juízes europeus e americanos ouvirá os argumentos de advogados internacionais a favor ou contra sua condenação.

Os juízes e o público - 800 espectadores e os internautas que seguirão a audiência ao vivo (http://www.sgt.gr) - decidirão se Sócrates foi culpado de desafiar os deuses da pólis, introduzir novas crenças e corromper a juventude.

Traidor para uns, mestre para outros, Sócrates colocava em questão a "doxa', a opinião comum, com base em perguntas com as quais levava seus discípulos a formular pensamentos que estavam latentes neles. O método é conhecido como maiêutica.

Questionamentos

Suas lições, que nunca escreveu e foram preservadas por seu discípulo Platão, questionavam uma vasta gama de temas, entre eles a política e a moral, o que rendeu a ele muitos inimigos.

"Claro que há um vínculo entre o processo de Sócrates e a atualidade, mas não apenas a atualidade grega. O tema é diacrônico e intercultural", explica Anthony Papadimitriu, presidente da fundação Onassis, organizadora do evento.

Através de Sócrates, "é abordada a questão dos limites da liberdade de palavra e pensamento. Até onde pode ir o cidadão que está contra o regime? Quais são os direitos do regime democrático contra os cidadãos?", explica.

"Também é levantada a questão da justiça. A ideia da inocência de Sócrates foi um pretexto para difamar a democracia ateniense. Trata-se de restabelecer a reputação da democracia grega", afirma Papadimitriu, que defenderá a pólis de Atenas.

Patrick Simon, advogado francês, será um dos defensores de Sócrates.

"Deve a democracia ter medo das opiniões contrárias e do livre arbítrio? Deve-se condenar ideias?", pergunta-se o advogado, feliz de poder participar do processo.

Os organizadores consideram que o processo fictício pode ser benéfico para uma Grécia em plena crise.

Nos últimos meses, a questão da democracia agitou o debate no país.

Manifestações

A violência do Estado contra um povo enraivecido pelas duras medidas de rigor, como ocorreu nas manifestações contra os planos de austeridade, ou a questão da legitimidade do governo anterior de Lucas Papademos, não eleito, suscitaram muitas perguntas.

"A Grécia pode estar vivendo um período difícil, mas acreditamos que devemos superar esta fase, como superamos os romanos, os turcos, os alemães e a cicuta", destaca Papadimitriu.

"Também espero que superemos a sabedoria dos eleitores", ironiza, dias antes da realização no dia 17 de junho de novas eleições legislativas. Nas eleições anteriores, os partidos hostis à austeridade obtiveram maioria e não foi possível formar um governo de coalizão.

O voto dos gregos, que tem cores de referendo a favor ou contra o euro, é esperado com muita atenção no exterior.

Segundo as pesquisas, o partido mais votado será o de esquerda radical Syriza, que pede a anulação das medidas de austeridade impostas ao país em troca de ajuda financeira da UE e do Fundo Monetário Internacional.

Fonte: http://www.cenariomt.com.br/noticia.asp?cod=199361&codDep=1

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A filosofia e o "agon"(luta) de Ulisses


Aquela expressão muito feliz do Prof. Delfim Leão ainda ecoa em meus ouvidos: HOMERO É UM MANANCIAL DE INFORMAÇÕES QUE NÃO PÁRA, QUE NÃO CESSA DE NOS SURPREENDER(in Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011).
Permitam-me, com isso, puxar um pouco a sardinha pro meu lado, já que tenho uma formação filosófica.
Partindo da ideia grega de Agon, de que a vida é como uma luta sem fim, presente inclusive nas guerras descritas por Homero, o filósofo moderno Nietzsche, pelo seu filtro filosófico e filológico, nos brinda com um texto belíssimo de sustentação das qualidades humanas e naturais dos gregos antigos, especialmente na epopeia e na tragédia. "O Agon em Homero", in Cinco prefácios para cinco livros não escritos. Nesse texto, Nietzsche aponta o homem grego como sendo movido pela relação entre suas qualidades humanas e qualidades profundamente naturais. Quer mostrar que o homem grego é fiel aos seus instintos naturais, aos seus impulsos, fazendo-o aproximar-se ainda mais das condições naturais de sua existência. Segundo ele, os gestos violentos, impulsivos e aterradores, a crueldade, os excessos todos são a fonte, o sólo fértil de onde brotam as grandes ações e as grandes obras da humanidade.
Para ilustrar essa leitura de Nietzsche no que diz respeito ao Agon grego, podemos citar Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão, como o "herói dos mil artifícios"(polymetis ou polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na figura engenhosa de Ulisses como o "herói que muito sofreu"(polytlas).
A luta e o prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
É da natureza e de toda extensão da cultura do grego, sob expressões diversas, como polemos, eris, meikos, esse poder de confrontação, que Heráclito de Éfeso, filósofo grego, absorve como princípio(arché) do universo. Heráclito, diretamente influenciado pelo Agon da vida grega, faz dele o princípio do mundo. Pensar o mundo como devir, vir-a-ser, é concebê-lo como uma luta constante. Diz ele: "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos"(Heráclito, Alegorias, 24).
O mesmo sentimento de luta de Ulisses, certamente, tivera sido uma fonte riquíssima, um legado precioso para o desenvolvimento ainda mais próspero da cultura grega nas bases da Filosofia. Outro exemplo disso é Sócrates, arraigado neste gosto(beleza também, estética) pela disputa, inventa a dialética e dá os primeiros passos em direção à Filosofia, propriamente dita.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

quarta-feira, 16 de maio de 2012

'Só mentirosos negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas'

Título original: A traição da psicologia social

por Luiz Felipe Pondé para Folha

Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).

Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.

Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.

Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.

Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...

Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.

O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".

Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.

Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.

Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.

Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ponto de Vista

Do ponto de vista da terra quem gira é o sol
Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito
Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito
Do ponto de vista do cego sirene é farol

Do ponto de vista do mar quem balança é a praia
Do ponto de vista da vida um dia é pouco
Guardado no bolso do louco
Há sempre um pedaço de deus

Respeite meus pontos de vista
Que eu respeito os teus
Às vezes o ponto de vista tem certa miopia,
Pois enxerga diferente do que a gente gostaria
Não é preciso por lente nem óculos de grau
Tampouco que exista somente
Um ponto de vista igual

O jeito é manter o respeito e ponto final (2x)

Autoria: Banda Casuarina

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ação política e paixão erótica: a política pequena

  
 Por Ivo Jose Triches e José Luiz Ames*
É possível estabelecer uma relação entre ação política e paixão erótica? O que leva o homem a agir politicamente e o que o atrai eroticamente? Nietzsche sugeriu que se tratava da “vontade de poder”: a existência de um desejo instintivo no homem de impor a si mesmo e aos outros sua própria escala valorativa. Aristóteles acreditava que tanto a ação política quanto a erótica eram respostas à tendência humana de realizar fins: a vida boa na política e a procriação na erótica. E para Maquiavel?
O homem, para Maquiavel, é um ser solitário e autointeressado que faz o bem quando é obrigado e o mal sempre que tem oportunidade. A solidão que atinge a essência do homem o faz enfrentar o problema: como alcançar a união, como transcender o solipsismo da vida individual e encontrar compensação? Enquanto o homem permanecer prisioneiro de sua solidão será incapaz de dominar ativamente o mundo, as coisas e as pessoas. Em outras palavras: se ele decidir viver só, estará fadado ao fracasso em todos os sentidos.
A ação política e a paixão erótica emergem como meios de romper as cadeias que prendem a alma humana e impulsionam o homem ao encontro dos outros em busca de compensação.
O prazer do poder político, assim como prazer da paixão erótica, está baseado na sensação de submissão. O erótico, na paixão, é o meio pelo qual se possui a uma pessoa, mas somente por um instante. O exercício do poder político, em compensação, é a possibilidade de possuir a muitas pessoas e por um tempo prolongado. O exercício do poder produz prazer constante. Contudo, se a posse erótica é mais breve do que a política, o orgasmo lhe confere maior intensidade. 
O erótico e o político estão unidos por uma mesma paixão humana: o poder. Poder é a capacidade de controlar a vontade do outro e impor-lhe determinado comportamento, mesmo contra sua vontade. Na ação política e na ação erótica, o controle da vontade do outro é tanto mais eficaz quanto mais prescindir da força bruta. O verdadeiro dominador é um encantador de serpentes. Ele faz uso da comunicação perlocucionaria objetivando atingir seus fins que é manter-se no poder.
O mundo da ação política é, por definição, pura presentidade. Aqueles que vivem nele são obrigados a tomar decisões no agora e aqui. Ali onde o presente é toda a realidade, onde o futuro se resume a escolhas presentes, domina a frivolidade. Neste mundo, as pessoas são levadas a querer usufruir imediatamente tudo quanto é possível. A regra de ouro é: gozar o tempo presente. 
É aqui que o erótico e o político se fundem. Os dois são fruições instantâneas, maneiras de eternizar a glória fugaz de um momento privilegiado: a vitória no jogo político é o equivalente do orgasmo no prazer erótico. Os escândalos sexuais que movimentam o noticiário político, em todas as esferas de organização do poder, são expressões da frivolidade de um mundo que não conhece sonhos. Basta recordar as fantasias do ex-presidente americano Bill Clinton com a sua Mônica Levinski. Na política e na erótica, é no agora e aqui que tudo se decide. É no agora e aqui que tudo é usufruído. A regra é o máximo de prazer pelo maior tempo possível. Aqui tudo é efêmero, nada pode ser apreendido. A frustração é o sentimento inevitável num mundo em que tudo precisa ser gozado imediatamente.
A aproximação entre o erótico e o político, na maneira como foi feita aqui, gera certo desencanto, com a política! Com efeito, se a ação política se rege pelo prazer efêmero da fruição, do gozo, da vitória à semelhança do orgasmo na relação erótica, o que podemos esperar dela? Será que a política não consegue ser mais do que um jogo em que interessa unicamente vencer, em que importa tão somente o resultado?
Quando olhamos para a ação política tal como ela acontece, a única resposta possível é de que ela não passa de um jogo em que interessa a vitória dos competidores. Não há finalidades substanciais, não existe nada de permanente a ser esperado dela. O destino da ação política é ser isso? Não há nada a ser feito para transformar a ação política em uma construção de um mundo de justiça, liberdade, igualdade? Será possível fazer da ação política uma obra que se dirija aos outros e não à satisfação dos próprios competidores?
Essa forma de ser de muitos que vivem no mundo partidário em nosso país, faz parte da “política pequena” como dizia Antonio Gramsci (1891-1937). Para que alguém consiga chegar à “grande política” é necessário que consiga transcender essa visão de mundo. E qual é essa nova visão? No próximo artigo indicaremos alguns caminhos. Contudo, abaixo você encontrará uma pista..
Voltemos por um instante à comparação da ação política com a paixão erótica. O eros é desejo de fruição insaciável. Quer possuir o outro como objeto de satisfação. Como a saciedade jamais acontece, é frustração. Somente quando o outro deixa de ser algo a ser possuído para ser alguém para ser amado, emerge a possibilidade de ser feliz. Para amar é preciso deixar o outro ser, é preciso querer seu bem não porque nos faz falta, mas simplesmente porque ele existe, porque a pura existência dele é motivo suficiente para amá-lo. 
Na ação política é preciso que um movimento semelhante aconteça para que se transforme de um jogo em que interessa tão somente o resultado em uma obra na qual é visado o conjunto da comunidade política e não os competidores do jogo. Enquanto a ação política se resumir à disputa entre partidos pela posse do poder, ou de indivíduos pelo domínio uns sobre os outros, ela não conseguirá ser mais do que fugacidade, esforço vão de eternizar a glória da vitória momentânea. Enquanto a ação política for isso será igual ao orgasmo na relação erótica: um prazer fugaz impossível de ser retido. Como fazer a ação política transformar-se de jogo de poder em vista do resultado em instrumento de construção para uma sociedade justa? A resposta é tão complexa quanto a outra: como fazer que a paixão erótica se transforme de fruição e gozo momentâneos em relação de amor? Resposta a essa questão está na segunda parte deste escrito que você poderá ler na próxima semana.

http://boletimodiad.blogspot.com.br/ 


* José Luiz Ames é doutor em Filosofia, professor da Unioeste. E-mail: profuni2000@yahoo.com.br
Ivo José Triches é diretor das Faculdades Itecne de Cascavel e Prof. Titular do Centro de Filosofia Clínica de Cascavel. E-mail: ivo@itecne.com.br  blog: www.itecne.edu.br/ivo

terça-feira, 8 de maio de 2012

O espírito agónico(luta) de Ulisses


Para nos deleitarmos sob a leitura de Homero no que diz respeito ao Agon grego, podemos citar ligeiramente Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão - (in Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011) - , como o "herói dos mil artifícios"(polymetis ou polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na figura engenhosa de Ulisses como o "herói que muito sofreu"(polytlas).
A luta e o prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
O povo grego vive intensamente os conflitos ou as guerras a que se propõe lutar quer por honra, glória ou conquista territorial. Certamente, em Ulisses, tudo isso vem legitimado, somando-se as estratégias gregas em combate.
Conforme a trama muito pessoal da nostalgia empreendida desde que fora obrigado a deixar a sua ilha, a aventura junto aos Ciclopes, que muito me impressiona, não faria sentido se não fosse um desvio à rota simples de seu trajeto, provocado pelo próprio Ulisses. Sem deixar de ser o que é, carregando consigo todas as suas boas e más qualidades, procura mostrar que não é um tirano. Por isso, nada melhor do que travar um “agon” com algo que aparece pra ele caracterizado de tirânico, ou seja, do modo de ser dos seres com que se vai confrontar. Ora, moradores desta ilha, os Ciclopes (“olho circular”), como sendo seres “arrogantes e sem lei” (Canto IX, v. 106), dependentes de um modo de vida bem provinciano e pastoril, sem quaisquer labor agrícola, pois tiram toda a sobrevivência da terra. Dissimulados, vivem da indiferença e desprezam a esfera política da existência. Cada qual que dite a lei para si e para os que de si dependem, sem deliberação em assembleia; habitam grutas, nos píncaros das montanhas (vv. 106-115). No entanto, para contrariar a tirania dessa gente, eis que surge Ulisses a fim de triunfar sobre um modelo de vida descomprometido com a virtude e com a excelência. O agon de Ulisses, portanto, reivindica sua arete, sua humanidade, seu aner frente aos Ciclopes.
Daí, como se verá através da ação do Ciclope Polifemo, o indivíduo escolhido para objeto agónico de Ulisses, é evidente que o mono-ocular e suas investidas não serão suficientes para conter o espírito de Ulisses, orientado por sua areté e seu logos, os quais promovem o agon muito mais superior. “Esta agonia representa um confronto direto com o mínimo da inteligência propriamente humana (se o não fosse, Polifemo teria sido aniquilado) e o máximo da inteligência propriamente humana: o triunfador, Ulisses. Com o ato de Ulisses junto de Polifemo nasce cruentamente e em agonia a afirmação da liberdade do ser humano como ser ético e político, senhor de seus atos, por via de uma agência inteligente, que nada submete, que nada pode submeter”(PEREIRA, Américo. Ulisses e Penélope. Da nova paradigmaticidade, a partir da Odisseia de Homero. Covilhã, Lusosofia, 2011, p. 12-17).
A Odisseia bem que poderia se chamar As agonias de Ulisses, haja vista seus intentos contra toda sorte de males nas guerras e em meio ao seu regresso à Ítaca. Trava sempre combates de vida ou morte. A sua sobrevivência é a sobrevivência e o triunfo do paradigma que representa toda uma civilização com histórias marcantes que influenciarão o progresso intelectual da humanidade. Engraçado, mas vejam que trocadilho curioso: O regresso de Ulisses que constrói todo o patrimônio do progresso civilizatório da humanidade. O contraponto do regresso é o seu progresso e vice-versa.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia
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